terça-feira, 7 de junho de 2011

Santa Rita e as abelhas

SANTA RITA E AS ABELHAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Entre os fatos extraordinários envolvendo a vida de Santa Rita de Cássia se relata que quando seus pais Antonio e Amata iam trabalhar nos campos, colocavam sua filha num cesto de vime e abrigavam-na à sombra das árvores. Um dia um grande enxame de abelhas brancas a envolveu, fazendo um estranho zumbido. Muitas delas entravam em sua boca e aí depositavam mel, sem a ferroar. Nenhum gemido da criança para chamar seus pais; ao contrário, sorria inocentemente de alegria. Aí é que surge um acontecimento miraculoso, pois, enquanto isso, um lavrador que estava próximo feriu-se com uma foice, dando um grande talho na mão direita. Dirigindo-se, imediatamente, para Cássia, a fim de receber os necessários cuidados médicos, ao passar perto da criança viu as abelhas que zumbiam ao redor de sua cabeça. Parou e agitou as mãos para livrá-la do enxame. No mesmo instante, sua mão parou de sangrar e o ferimento se fechou. Gritou de surpresa, o que chamou a atenção de Antonio e Amata que acorreram ao local. O enxame, por alguns instantes disperso, voltou ao seu lugar e mais tarde, quando Rita foi para o mosteiro de Cássia, as abelhas ficaram nas paredes do jardim interno. Este fato é relatado pelos biógrafos desta santa e transmitido pelas tradições e pinturas que a ele se referem. Seus pais também atribuíram este acontecimento a um prodígio divino. A Revista oficial do Mosteiro Agostiniano de Cascia tem por epígrafe “Das Abelhas às Rosas” com aprovação eclesiástica. Aquele episódio da infância de Rita de Cássia tinha um significado bíblico profundo. Repleta de virtudes, realmente, seria sua existência. A santidade de vida enche a alma de doçura como o mel ao paladar, dado que seu favo, ou seja, alvéolo ou conjunto de alvéolos onde as abelhas o depositam, é doce, deleitável. O mel é um alimento útil, dado que muito contribui para a saúde corporal. Leva inclusive à moderação, porque por causa de sua delícia tomado em excesso faz mal ao organismo humano, assim como o egoísmo, que um excesso de amor a si mesmo, o faz para a alma. Donde o conselho do Livro dos Provérbios: “Se achaste mel, come o quanto te basta” (Pv 25,16). É preciso que cada um cultive suas qualidades inatas, mas colocando os dons de Deus a serviço dos outros. Na Bíblia a palavra de Deus é frequentemente comparada ao mel: “Quão doces são ao meu paladar as vossas palavras, mais do que o mel à minha boca!” (Sl 119,103). É o que está também no profeta Ezequiel (Ez 3,3). Cumpre, porém, a exemplo de Santa Rita que era sempre humilde, não atribuir a si mesmo os efeitos das mensagens divinas que, uma vez degustadas, devem ser transmitidas aos outros. Sansão encontrou mel no cadáver de um leão e seu enigma mostra como Deus faz transformar a força do inimigo num meio de sustentar a força daquele que se confia nele. A excelência da Palavra de Deus para quem crê, como Rita de Cássia, é como um alimento sólido. Além do mais o mel é o símbolo da sabedoria (Pv 24,132-14). Há uma passagem nos salmos sumamente expressivas: “Gostai e vede como o Senhor é bom”. Quando alguém percorre as veredas divinas e se deixa guiar pelo Espírito de Deus pode chegar a tal grau de discernimento e entendimento das veredas reveladas que, passa a saborear o que é espiritual. Nisto, basicamente, consiste o Dom da Sabedoria. Eis a razão pela qual o Eclesiastes declara que o amor de Deus é uma gloriosa sabedoria. S. Pedro explica com precisão este fato ao escrever: “Deixando, pois, toda a malícia e todo o engano, e dissimulação, e invejas e toda sorte de detrações, como meninos recém-nascidos, desejai ardentemente o puro leite espiritual, para por meio dele, crescerdes para a salvação; se é que saboreaste como é doce o Senhor”. Trata-se de experimentar o convívio com o Infinito e, na cela interior do próprio coração, degustar, fruir a presença deste Ser Supremo; pausada e reflexivamente, provar o conteúdo de cada palavra das Escrituras Sagradas, das preces; de meditar as inspirações celestiais recebidas com grande satisfação interior. A conaturalidade surge então, inebriando o fiel nas maravilhas deificas. S. Paulo, ao falar que a verdadeira sabedoria está no Evangelho, tem este texto sumamente expressivo: “Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam: a nós, porém, Deus revelou-o por meio de seu Espírito; porque o Espírito penetra mesmo nas profundezas de Deus”. A tranqüilidade é o resultado natural desta sabedoria celestial, pois o contato com o Senhor resulta no equilíbrio perfeito. Davi afirmou que há muita paz para os que amam a vida eterna. Possuir o mel da sabedoria é, de fato, ter encontrado a chave da felicidade, mesmo nos sofrimentos, como aconteceu com a gloriosa Santa Rita de Cássia, que viveu em plenitude o sentido bíblico do mel.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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