segunda-feira, 27 de abril de 2009

Espiritualidade de Catarina de Sena

A ESPIRITUALIDADE DE SANTA CATARINA DE SENA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Catarina (1347-1380) foi a última dos vinte e cinco filhos do tintureiro Tiago de Benincasa e sua mulher Lapa. Mal tinha atingido o uso da razão, pois contava apenas sete anos, dedicou a sua virgindade à Virgem Santíssima, confirmando esse voto com a prática da oração e de atos de penitência. Embora religiosos, os pais achavam censurável tal método de vida e, como quisessem afastá-la do que lhes parecia exagero de piedade, sobrecarregaram-na de trabalhos domésticos. Mas Deus, escreveu ela mais tarde, ensinou-lhe a construir em sua alma uma solidão, para a qual pudesse se retirar, ao mesmo tempo que lhe deu uma paz e uma tranqüilidade imperturbável. Desistindo os pais de contrariar-lhe a vocação, entra Catarina no convento, tomando o hábito da Ordem Terceira de São Domingos. Foi uma leiga cristã que atingiu as raias da santidade nos caminhos da ascética e da mística. Teve dentro de si mesma uma luta tremenda; vieram-lhe as mais esquisitas tentações da carne, mas a vitória foi do espírito. Jesus então lhe aparece com as chagas da Paixão, numa como recompensa à sua fidelidade. Catarina, ao vê-lo, exclama: “Onde estáveis, durante esse terrível combate?” “Minha filha, eu estava no teu coração Foi a minha presença que te assegurou a palma da vitória”. A peste assolou Sena em 1374. Foi uma desolação para a cidade. A ação de Catarina mitigou os sofrimentos da população, para quem a humilde religiosa foi um anjo de Deus. Durante oitenta dias, seu único alimento foi a sagrada comunhão. Mas que ânimo, que força incomparável, tinha aquela mulher, cuja presença só levantava os empestados, curando o corpo e a alma. A sua palavra adquiriu uma autoridade tão grande, que, a seu conselho, o Papa Gregório XI deixou a cidade de Avinhão e voltou para Roma, pondo termo a uma situação difícil para a Igreja, pois, o que existia era um estado de coisas que mais se assemelhava a um cisma de fato. A sua vida foi um milagre permanente de oração, penitência e zelo pela causa de Deus. Morreu aos trinta e três anos. Deixou numerosos escritos de profunda espiritualidade e cartas de grande importância histórica e religiosa. A doutrina de Santa Catarina de Sena é admiravelmente simples e homogênea. Ela parte do duplo conhecimento necessário de Deus e de si mesmo, que deve ser o referencial de todas as ações. Deixou escrito: “O caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência de Deus é este: nunca abandonar o auto-conhecimento”. Acrescentou: “Conhecendo-te, tu te humilharás ao perceber que, por ti mesma, nada és”. Trata-se de um apelo à luta contra o amor-próprio para que tudo seja feito em prol do louvor a Deus e bem do próximo. Provada por Deus por sofrimentos físicos e morais, uma a vez que foi alvo de dolorosas incompreensões por parte das pessoas com quem convivia, ela asseverou: “É na adversidade que se prova ter paciência e amor”; “Nesta vida ninguém vive sem a sua cruz”. Nos seus arroubos místicos ela exclamava: "Vós, Trindade eterna, sois meu Criador e eu, vossa criatura. De novo me criastes no Sangue de vosso Filho. Nesta nova criação conheci que
Vos enamorastes da beleza de vossa criatura”; "Ó abismo, ó eterna divindade, ó mar profundo! E que mais poderíeis dar-me que dar-vos a mim? Sois fogo que sempre arde e não consome. Sois fogo que consome todo amor-próprio da alma. Sois fogo que destrói toda frieza; "Oh Trindade eterna, foco e abismo de caridade, dissolvei já, a nuvem deste corpo meu! O conhecimento que me destes de vós, em vossa verdade, me impele ao desejo de me livrar do peso deste meu corpo e dar a vida pela glória e louvor de vosso nome!"; "Oh eterno e infinito Bem, oh louco de amor! Será que necessitais de vossa criatura? Parece-me que sim, pois agis como se sem ela não pudésseis viver, embora sejais vós a vida, pois todos os seres recebem a vida de vós, e sem vós ninguém vive”. Foi canonizada em 1461 e proclamada doutora da Igreja em 1970. Sua festa é celebrada dia 29 de abril. * Professor no Seminário de Mariana de 1967 a 2008.
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